Novos estudos atestam a explosão do uso de IA para suporte psicológico
“No que vocês está pensando hoje?” O serviço de inteligência artificial lança a pergunta de um jeito despreocupado, informal. De inocente, contudo, o bordão do ChatGPT não tem nada: é um convite para que o ser humano diante do celular ou computador consulte o oráculo digital sobre tudo — inclusive a própria vida, suas angústias, anseios e inseguranças. A incorporação da IA ao cotidiano é relativamente recente, mas já tem um impacto psicológico sobre nós: a tendência de criar laços emocionais com os chatbots. Para um número crescente de pessoas, a IA virou confidente, conselheira, terapeuta e até companhia romântica. Agora, novos estudos se propõem a mensurar o fenômeno e investigar eventuais benefícios e, sobretudo, os riscos nessa relação.
O pendor da humanidade pela busca de suporte afetivo em serviços como o ChatGPT, o Gemini, do Google, ou o Claude, da Anthropic, é compreensível. Como atestava o mestre da primatologia Frans de Waal (1948-2024), a procura por apoio emocional é uma estratégia evolutiva. Encontrar um interlocutor capaz de oferecer empatia, segurança e palavras de conforto nos ajuda a superar momentos difíceis. Um papel que tradicionalmente coube a familiares, amigos, professores, religiosos — e, desde o século XIX, à figura do terapeuta. É eloquente que agora os humanos passem a confiar sua intimidade a uma modalidade de confidente inédita na evolução: uma máquina movida a algoritmos.

Novas pesquisas científicas mostram que as pessoas se valem cada vez mais da IA para se abrir sobre seus problemas. Os jovens, em especial, revelam-se mais propensos a isso (veja o quadro). Um levantamento com 3 800 adolescentes europeus, recém-divulgado pelo instituto Ipsos BVA, detectou que mais da metade deles admite tratar da vida emocional com chatbots. Nos Estados Unidos, outro estudo trouxe à luz que um a cada cinco jovens de 12 a 21 anos recorre à IA em busca de apoio à saúde mental. Aplicativos que se vendem especificamente como amigos, amantes ou confidentes também proliferam no exterior — a oferta de serviços assim cresceu 700% em apenas quatro anos.
Esses apps ainda não são populares por aqui, mas o Brasil não fica atrás na tendência. Pesquisa feita em 2025 pela consultoria Talk Inc auferiu que 58% de 1 200 entrevistados acima de 18 anos já usaram a IA para resolver questões emocionais. “Somos um dos maiores usuários de WhatsApp do mundo e isso tem relevância quando pensamos em chatbots de IA, pois indica que temos um tipo de comportamento mais conversacional”, diz Carla Mayumi, da consultoria Talk Inc.

Embora a OpenAI, dona do ChatGPT, garanta que sua ferramenta não foi criada para imitar ou substituir as relações humanas, fato é que isso já está ocorrendo. Mas o que atrai tanto os humanos nesse interlocutor peculiar? Uma pesquisa qualitativa da Universidade de Glasgow, na Escócia, mostra que as pessoas se deixam seduzir porque os chatbots são uma fonte de apoio de fácil acesso, constantemente disponível, confidencial — e sem julgamentos. “Eles criam para as pessoas a experiência subjetiva de se comunicar com uma entidade semelhante a um humano”, disse a VEJA um dos estudiosos à frente da pesquisa, Riccardo Volpato.
A civilização caminha de modo acelerado, ironicamente, rumo a uma realidade que lembra a do filme Ela (2013), em que Joaquin Phoenix mantinha relacionamento obsessivo com uma IA. Isso não é necessariamente ruim: o estudo escocês indica que as pessoas podem encontrar conforto e benefícios terapêuticos ao dividir seus problemas com um chatbot. Mas o potencial nocivo merece atenção. “As maiores preocupações dizem respeito às pessoas que podem não ter autonomia para avaliar a eficácia e a segurança de suas interações”, diz Volpato.
Quando os usuários perdem a noção de limites e passam a confiar cegamente no algoritmo, até a vida pode correr perigo — exemplo tétrico disso é o do americano Jonathan Gavalas, que cometeu suicídio ao crer que mantinha um romance com o chatbot do Gemini. Mesmo para a maioria que leva a intimidade com a IA de forma amena, não se pode perder de vista que a máquina é falha. Seu pior defeito, dizem os especialistas, é a tendência de passar a mão na cabeça do usuário, concordando com ele em tudo, o que nem sempre leva à verdadeira reflexão. Para o bem ou para o mal, porém, um dado é irrefutável: a era das confidências virtuais veio para ficar.
Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001
